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Um dia com… Ângela Malheiros

Domingo, 21.11.21

Publicamos um trabalho do nosso amigo Snr. Dr. Francisco Félix, numa colaboração que mantem com o jornal A Voz do Mar, tendo como referência a nossa companheira Drª Ângela Malheiros.

Bibliotecária municipal que leva em conta os valores da sustentabilidade e da conservação da natureza
Um dia com… Ângela Malheiros
Sentados sob o alpendre virado a sul, acompanhados pela nogueira-negra e pelos sons matinais provenientes da rua Luís de Camões, encetámos a conversa. Inicialmente projetada para a zona da grande figueira que existe no espaço verde que acaricia a biblioteca, a troca de impressões decorreu com toda a tranquilidade, num espaço abrigado relativamente ao vento norte que se fazia sentir na manhã de 29 de setembro.
Efetuado o enquadramento do local escolhido para o diálogo, importa perspetivar a entrevista no contexto desta rubrica.
Deste modo, a ideia central encaixa-se no papel desempenhado pela biblioteca no âmbito da sensibilização ambiental, sem esquecer as componentes associadas à literacia como suporte dos valores intrínsecos da cidadania, podendo a conversa estender-se por várias interfaces. A responsável pela Biblioteca Municipal de Peniche, Ângela Malheiros, natural de Peniche, licenciou-se em Ciências da Comunicação, pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa,
possuindo ainda pós-graduação em Ciências Documentais.
O repórter praticamente nem precisou de se socorrer do alinhamento traçado, uma vez que a Ângela, como comunicadora nata, foi interligando as temáticas com toda a facilidade. A técnica superior de biblioteca desempenha funções nesta casa desde novembro de 1997, tendo começado por referir as fases pelas quais este tipo de infraestruturas foi passando, reflexo de todas as mudanças tecnológicas e civilizacionais ocorridas no mundo. Neste contexto, recordou, com saudade, os primeiros tempos em que ela própria fazia os cartazes das atividades da Biblioteca, editava o boletim periódico “Biblioactividades” e coordenava os serviços, que já incluíam a disponibilização da internet (ainda antes da criação do Espaço Internet), entre outros afazeres. Ainda estávamos no tempo das disquetes e afins.
Registe-se que, em 2003, a Fundação Calouste Gulbenkian (FCG) decidiu extinguir a sua rede de Bibliotecas - a de Peniche era a Biblioteca Fixa nº 162- deixando, no entanto, o espólio até aí doado à Biblioteca Municipal, havendo assim um sustentáculo para uma autonomização progressiva. Viajámos também pelos tempos em que as bibliotecas itinerantes, depois reforçadas pelas bibliotecas fixas, criavam comunidades de leitores, numa altura em que o acesso à cultura se fazia com dificuldade.
Entretanto fomos falando acerca de vários aspetos relacionados com a cidadania ambiental e o trabalho desenvolvido ao longo dos anos, sob a orientação da Ângela, a saber:
- as “Bibliotecas de Praia”, onde a leitura em espaço natural,
complementada por outras atividades, deixou marca significativa;
- ações inseridas no plano anual e destinadas ao público escolar que, de alguma forma, se debruçam sobre a natureza. Registam-se alguns exemplos: Hora do Conto, Contos com Valor Acrescentado, Era uma vez um Rei…, Uma Tarde com a Poesia..., A Aventura dos Descobrimentos, Provérbios de Sempre, Animais do Mundo e Países do Mundo. Aos eventos mencionados seguem-se iniciativas complementares que permitem a construção de ambientes de aprendizagem que amplificam as
mensagens subjacentes e que estimulam a criatividade. Sublinhe-se que muitas destas iniciativas acontecem na garagem, espaço que foi adaptado de uma forma sustentável;
- apresentação de livros, alguns dos quais ligados aos valores da sustentabilidade. Como exemplo do que acaba de ser dito, refira-se a divulgação da obra “Simão sem medo. Os Jardins das Cerejeiras”, de Miguel Granja, com ilustrações de Beatriz Bagulho. A anteceder o lançamento deste livro, decorreu workshop onde os mais jovens puderam construir modelos das personagens da história, reaproveitando diversos tipos de resíduos;
- encontros com escritores, especialmente com aqueles que têm forte ligação ao concelho;

- “A poesia anda por aí”, promovendo-se a leitura de poesia em todas as localidades do Concelho de Peniche. Certame muito do agrado da entrevistada porque representa o corolário de trabalho continuado que principiou com a “Poesia na Garagem”. Foi com muito carinho que se referiu aos dizedores que colaboraram neste projeto, dos mais jovens aos mais consagrados. Assim, não admira que, como resposta à minha indagação acerca das maiores alegrias enquanto responsável pela biblioteca, apontasse de imediato o projeto ora referenciado;
- a realização de sessões nos centros de dia e lares também lhe tem proporcionado experiências ímpares. Algumas abordagens permitem até avaliar em que medida os seniores praticaram comportamentos ecológicos corretos, desde o uso de sacos de
pão reutilizáveis, compras a granel, reduzida produção de resíduos e outras valias a recuperar para as sociedades do momento;
Agora já não tanto, mas a biblioteca funciona também como local de ocupação de tempos livres, sendo ainda um porto de abrigo para alguns utentes. Para o bom funcionamento da instituição contribuem também jovens que fazem aqui a sua
integração societária. Com cerca de quatro milhares de leitores inscritos, apenas uma pequena parte usa a biblioteca de forma regular. As crianças e os adultos são os grupos etários que mais frequentam este espaço, utilizando os vários recursos lúdico-
-educativos (livros, cds, dvds). Não admira que na aquisição de obras se dê particular ênfase às destinadas ao público infantojuvenil. No estio, o número de leitores aumenta consideravelmente, uma vez que alguns veraneantes aproveitam para revisitar a nossa biblioteca. Assinale-se que a Biblioteca Municipal funciona em rede com várias estruturas, criando-se sinergias nos vários campos de atuação: Rede Intermunicipal de Bibliotecas do Oeste, Rede Nacional de Bibliotecas Públicas, Rede Cultura 2027, Rede de Bibliotecas Escolares. A situação pandémica veio também estimular a promoção de atividades online, nomeadamente a criação da C.O.L.O - Comunidade Online de Leitores do Oeste. A bibliotecária colabora também com a Rede Museológica e com outros serviços do município, nomeadamente nas áreas da Ação Social e Educação. Exemplo disso é o recente projeto “Terráqueos no Ar”, podcast de cariz ambiental desenvolvido a partir de entrevistas àscrianças do nosso concelho.
Agradeço à Ângela Malheiros a simpatia com que me recebeu e o entusiasmo evidenciado nesta espécie de tertúlia. A minha interlocutora destacou
a importância deste tipo de eventos na sociedade atual, pois às vezes parece que a informação é tanta que não há tempo para a processar. As potencialidades formativas do mundo digital são enormes, mas corre-se o risco de os espaços de diálogo serem
cada vez mais herméticos e condicionados.
Ao ser questionada acerca dos passatempos de que desfruta, referiu sem surpresa a leitura, revelando que não tem um livro, um autor ou um género literário preferidos...tentando diversificar ao máximo as suas leituras. Ultimamente, a título pessoal, tem investido em poesia, salientando que esta é intemporal e pode ser constantemente (re)pescada.
Aproveitou também para destacar dois poemas que se adequam muito bem à ocasião: “As Árvores e os Livros”, de Jorge Sousa Braga e “Poema das Árvores”,
de António Gedeão. Ainda no que respeita à ocupação de tempos livres destacou as artes (música,dança, artes plásticas) e a apresentação de eventos, evidenciando uma grande paixão pelas diversas formas de comunicação.
A fotografia inserida neste texto foi captada junto da icónica figueira da Biblioteca, também do gosto da avifauna que povoa o bem arranjado espaço verde. A Ângela falou com grande enlevo da vegetação arbustiva e arbórea presente no jardim e em especial da figueira, pois a árvore vai refletindo a passagem das estações e já tem servido de cenário às atividades de animação da leitura que tanto gosta de dinamizar. No retorno ao espaço coberto, ainda refletimos sobre as várias utilizações do edifício e nas saudades que terá aquando da passagem para o futuro Centro Cívico e Intergeracional, apesar da elevada expectativa face ao novo espaço. O encontro finalizou com a verificação de possibilidade de articulação de atividades com o programa Eco-Escolas.
Desta vez despeço-me com um breve apontamento. Assim, num dos últimos números deste periódico constatei que comecei a aparecer na ficha técnica como colaborador. Incentivado pelo professor António Alves Seara, uma das minhas referências éticas, didático-pedagógicas e estéticas, desde cedo fui participando com artigos para o jornal de acordo com circunstâncias várias. É com grande satisfação que agora desenvolvo este trabalho, como é óbvio, sob a forma de voluntariado. No fundo, trata-se de mais uma homenagem a um dos responsáveis pelo sucesso e longevidade de “A Voz do Mar”.
Até dezembro

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Rotary Clube Peniche às 13:39




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